:: PERFIS HISTÓRICOS

PROF. OCTÁVIO AUGUSTO CEVA ANTUNES
A versatilidade química do farmacêutico engajado nos problemas sociais

Cientista brilhante e versátil, com preocupações que iam além de seu laboratório, Octávio Augusto Ceva Antunes, Prof. Titular do Instituto de Química da UFRJ, desenvolvia linhas de pesquisas interdisciplinares em diferentes áreas da Química.  Com inúmeros artigos científicos publicados e um portfólio de 23 pedidos de patentes, sendo 3 internacionais, o Prof. Octávio teve uma atuação ímpar tanto na luta pelo acesso, como na busca por novos medicamentos anti-HIV.

Especialista no estudo de inibidores das proteases virais, o Prof. Octávio Antunes, de 2004 a 2008, foi consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) em produção de fármacos anti-HIV. No Brasil, contribuiu para a consolidação do Programa de AIDS do Governo Federal, compartilhando a sua expertise para construção da capacidade nacional de fabricação de antiretrovirais genéricos para o tratamento do HIV.

Há três anos, estendeu o seu conhecimento da protease do HIV para a protease de outros vírus da mesma família, os flavivírus. Com isso, passou a pesquisar novos medicamentos para o combate da Hepatite C e da Dengue. A protease é uma enzima que faz parte do organismo do vírus, portanto, ao inibir a sua ação, o fármaco seria capaz de bloquear a replicação do microorganismo.

Na área de biocatálise, licenciou a patente “Processo Catalítico para a Esterificação de Ácidos Graxos” para a Agropalma S. A., a primeira usina brasileira de biodiesel a utilizar catalisadores heterogêneos para a produção de biocombustível. Esse processo permite a utilização de matérias-primas sem a necessidade de refino e com custos operacionais significativamente mais baratos. Desde 2005, a UFRJ recebe royalties pela invenção.



Caricatura de um gênio

Chefe do Laboratório de Catálise/LABOCAT (IQ-UFRJ), líder de um grupo heterogêneo e extenso, em torno de 40 pesquisadores, o Prof. Octávio Augusto Antunes orientava trabalhos em diferentes campos tais como: síntese de fármacos e complexos inorgânicos, reações de acoplamento, biocatálise, desenvolvimento de nutracêuticos, entre outros.

Na história da Química ele foi o pesquisador mais versátil que tivemos no Brasil. Com atuação em áreas diversas” – ressaltou Donato Aranda, engenheiro químico responsável Laboratório de Tecnologias Verdes/ Greentec (EQ-UFRJ) e amigo pessoal do Prof. Octávio, com quem divide a responsabilidade pela autoria de 9 patentes na área do biodiesel.

Aranda descreve o mestre como uma pessoa de personalidade forte, com princípios éticos e uma sinceridade sem igual, provido de um humor sarcástico e inteligente: “Tinha a caricatura de um gênio, o verdadeiro estereótipo do cientista”. Generoso e com uma capacidade incrível de estimular o conhecimento científico entre seus alunos e colaboradores, o Prof. Octávio era conhecido por ter uma mente inquieta.

Se você quer descobrir alguma coisa, tem que acordar e dormir com essa coisa na cabeça. Não pode dispersar. Essa era uma frase que o Octávio sempre repetia” – lembrou o Prof. Amilcar Tanuri, chefe do Laboratório de Virologia Molecular (Inst. Biologia – UFRJ) e colaborador nas pesquisas de antiretrovirais. “Com o hábito de ler muito, era uma das pessoas no mundo que sabia mais sobre as proteases do HIV” – completou.

Com uma ciência engajada nos problemas sociais, o Prof. Octávio Antunes além de pesquisar novos medicamentos, teve também uma atuação importante no desenvolvimento galênico de genéricos. Segundo o Prof. Rodrigo Souza, o seu braço-direto no Laboratório de Catálise, o mestre tinha um sonho: simplificar rotas para tornar os medicamentos mais acessíveis aos mais pobres.

Em 2008, junto com os pesquisadores Eloan Pinheiro e Joseph Fortunak, publicou um importante artigo, na revista Antiviral Research, dissertando sobre novas rotas alternativas para a produção de antiretrovirais nos países em desenvolvimento. “Ele lutava para que nas doenças crônicas, em que o paciente tem que tomar medicação diariamente, o custo dos medicamentos fosse mais barato” – destacou o Prof. Rodrigo.



Trajetória científica  

Octávio Augusto Ceva Antunes graduou-se em Farmácia, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1974. Concluiu o mestrado em Química, em 1977, no Instituto Militar de Engenharia (IME) e obteve o título de doutor, também na área de Química, em 1987, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Assim que entregou a sua tese, foi para a França cursar o pós-doutorado em Organometálicos na Universidade de Paris VI.

Desde 2005, é Professor Titular do Instituto de Química da UFRJ, já tendo ocupado cargos na administração da Universidade, enquanto era professor adjunto (1990/2000). Entre 2005 e 2006, foi coordenador do Programa de Pós-Graduação em Bioquímica e, de 1991 a 1994, responsável pela Pós-Graduação em Química Inorgânica. Tendo ainda atuado como professor auxiliar em Química Orgânica, entre 1979 e 1980.

Durante toda a década de 80, trabalhou como pesquisador científico sênior na Companhia Souza Cruz. Na época em que estava fazendo o seu mestrado, entre 1976 e 1977, foi professor assistente em Físico-Química na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trabalhou com Analista do INMETRO/ Conselho Nacional do Petróleo, entre 1974 e 1975. Na sua graduação em Farmácia, foi monitor de Química Analítica na UFF, por 2 anos, de 1972 a 1974. 

Possui 23 pedidos de patentes, sendo 3 internacionais, mais de 200 artigos publicados em periódicos especializados, 5 capítulos de livros e 1 livro editado, em 2001, intitulado “Catálise enzimática com misturas de enantiômeros e substratos pró-quirais: aspectos cinéticos”. Como reconhecimento de sua carreira científica recebeu diversos prêmios e homenagens.

Supervisionou 22 pós-doutorados. Orientou ou co-orientou 46 dissertações de mestrado e 30 teses de doutorado nas áreas de Química, Bioquímica e Engenharia Química. Foi responsável pela implantação de diversos processos de produção de fármacos e nutracêuticos, em diferentes projetos de Pesquisa Desenvolvimento & Inovação com o setor industrial.

Revisou diversas publicações científicas, tendo participado do corpo editorial da "Revista Virtual de Química-RJ", do "Letters in Organic Chemistry", do "Letters in Drug Design and Discovery", do "Journal of Food Technology", do "The Open Enzyme Inhibition Journal" e do "The Open Inorganic Chemistry Journal". Fez parte ainda do grupo de redatores (highlighters) do "Organic Process Research & Development" da American Chemical Society.

Além de ter prestado consultoria Ad Hoc, no Brasil, a agências como CNPq, CAPES, FAPERJ, FAPESP, FAPERGS, entre outras e; no exterior, à Agence Nationale de Recherche (França)/Deutsche Forschunggsgemeinerschaft (Alemanha), para o Programa EFC do Ministerio de Educación, Ciencia Y Tecnologia (Argentina) e do International Center for Frontier Research in Chemistry (Estrasburgo, França).




A despedida do mestre

No dia 31 de maio de 2009, o Prof. Octávio Augusto Ceva Antunes embarcou em um vôo com destino a Paris, com esposa e filho, para uma temporada de 30 dias de pesquisas colaborativas na área de fármacos antiretrovirais na Universidade francesa Cergy-Pontoise. Vítima de uma tragédia aérea, o mestre teve a sua carreira encerrada precocemente, no entanto, o legado deixado para ciência brasileira terá continuidade nas mãos de seus colaboradores e discípulos que, certamente, irão zelar para que o seu sonho cada vez fique mais próximo de se tornar realidade*.

*O Prof. Octávio Antunes deixou em vida 43 orientações em andamento (11 mestrado, 23 doutorado, 2 pós-doutorado, 7 iniciação científica) e 8 artigos aceitos para publicação.
Foto: Gabriela D'araújo, Coordcom-Ufrj
Prof. Octávio Augusto Ceva Antunes
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