:: ENTREVISTAS

PROFESSOR LEVY GOMES FERREIRA
Um farmacêutico que ajudou a construir e a escrever a história do ensino de Farmácia no Brasil

Por Lúcia Beatriz Torres

Responsável por erguer alguns dos principais pilares da Faculdade de Farmácia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Professor Levy Gomes Ferreira contribui ainda para escrever a “genealogia” dos 60 anos da instituição e popularizar a história da Farmácia no Brasil. Um acadêmico completo, com atuação nas salas de aula e na administração. Um farmacêutico exemplar, que carrega consigo a dedicação e o esforço para implantar um modelo de assistência farmacêutica no Brasil. Guardião das relíquias do Museu da Farmácia Antônio Lago, Dr. Levy foi o criador de um projeto itinerante que leva o conhecimento farmacêutico até o povo, despertando a vocação pela profissão.

Levy Gomes Ferreira ingressou como aluno da Faculdade Nacional de Farmácia, da Universidade do Brasil (atual UFRJ), assim que ela recebeu a sua autonomia. Em 1950, formou-se como farmacêutico-químico e logo entrou para o Doutorado, recebendo, de pronto, um convite para incorporar-se ao quadro docente da escola. Ele não poderia prever o futuro, mas o seu destino lhe reservou algumas responsabilidades que iriam marcar a história da Faculdade para sempre.   

A transferência da Faculdade de Farmácia da Praia Vermelha para o Fundão.  A implantação do Serviço de Farmácia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho. A criação da Farmácia Universitária. Ao todo, foram 43 anos dedicados à instituição. Na carreira de magistério galgou todos os postos até chegar à adjunto 4. Uma de suas maiores decepções é não ter havido concurso para Professor Titular enquanto ainda fazia parte do quadro docente da universidade. Por 12 anos consecutivos, no período compreendido entre 1982 e 1994, alternou-se na gestão da Faculdade de Farmácia, ocupando o cargo de diretor e vice-diretor.


A Paixão pela Farmácia

Paralelamente às suas atividades universitárias, Levy Gomes Ferreira foi assessor e farmacêutico responsável por vários laboratórios e hospitais. Fez cinco concursos públicos, e passou, com êxito, em todos. Optou por seguir carreira no  Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro e lá permaneceu, por 20 anos, até ser convidado para instalar e chefiar o Serviço de Farmácia do Hospital Universitário/UFRJ. Depois de aposentado pela Federal foi convidado para trabalhar na Santa Casa de Misericórdia e, posteriormente, a dar aulas na Universidade Gama Filho, onde também exerceu o cargo de coordenador de estágios.

Levy Gomes Ferreira possui uma atividade intelectual dinâmica. Desenvolveu vários estudos premiados, que comprovaram a ineficácia de medicamentos, e foram responsáveis retirá-los do mercado. Independente de todos os seus encargos profissionais, o professor Levy sempre teve uma paixão: a cosmetologia. Gostava de desenvolver produtos cosméticos próprios, fazia creme para as mãos, hidratante, creme para o rosto. Atualmente, sua vida é dedicada a transmitir sua experiência científica nos livros. Já possui pelo menos 18 temas listados, alguns volumes previstos para serem lançados ainda este ano.
        

A Paixão pelos Amigos Farmacêuticos

Graças à iniciativa de Levy Gomes Ferreira a turma dos “farmacolandos” de 1950 pode se reunir, em 2001, para comemorar o seu Jubileu de Ouro. Com uma dedicação impecável, entrou em contato com cada um, aplicando um questionário específico para conseguir delinear genealogia dos formados daquela época. Foi constatado por Levy que, em 50 anos, os colegas de turma geraram 60 filhos e 103 netos.  Durante o período de pré-produção das comemorações do Jubileu - que se estendeu por uma semana com direito à missa, viagem, almoço e homenagens – os amigos receberam boletins periódicos relatando como era a Faculdade de Farmácia, em 1950, e como ela é nos tempos atuais. Uma contribuição e tanto, não só para o resgate da memória afetiva, mas também para a recuperação da história da Faculdade de Farmácia da UFRJ.


A Paixão pela Família

Levy Gomes Fereira convergiu no casamento as suas duas paixões: a Farmácia e a Família. Casou-se com a farmacêutica Haydée Neves Ferreira, que foi sua companheira de classe nos tempos de faculdade e com ela teve 5 filhos. Recentemente Levy, que tem berço em uma família numerosa, recebeu uma importante incumbência de uma prima - construir a árvore genealógica do ramo dos Oliveira Guimarães. Prof. Levy, que foi bastante eficaz na procura por seus colegas de turma de faculdade, agora transfere para a família o seu espírito investigador. O projeto genealógico é uma forma de homenagem à sua mãe, Elza Oliveira Ferreira (Elza Oliveira Guimarães – nome de solteira), que hoje está com 95 anos, e é a única representante viva dos 18 filhos da avó de Levy. Quem tiver informações referentes aos membros e descendentes de sua família, favor entrar em contato com o Mestre.

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA PORTAL DOS FÁRMACOS

 

Portal: Desde menino o Sr. já queria ser farmacêutico? Como surgiu este gosto pela Ciência?
Prof. Levy Gomes Ferreira: Eu nasci em um meio onde eu só via remédio diante de mim. Eu vivia na farmácia do meu pai, nos fundos, dentro de uma tina, um barril de vinho cortado ao meio, onde minha mãe colocava os brinquedos e eu ficava brincando. Fiz o meu curso primário, secundário e científico. Aos poucos fui me entusiasmando e me envolvendo com a atividade do meu pai. Não contente em ser apenas farmacêutico, meu pai decidiu estudar Odontologia. Minha mãe ficava trabalhando na farmácia e como eu ajudava a arrumar as coisas lá também, comecei a dominar tudo aquilo. Ele se formou, montou consultório em cima da farmácia, exerceu a profissão. Passou mais um tempo, meu pai resolveu estudar Medicina. No mesmo ano em que ele saiu formado médico, eu saí farmacêutico. Ele decidiu ficar na Medicina e eu tomei conta da farmácia.

Portal: E como o magistério entrou na sua vida?
Prof. Levy Gomes Ferreira: Quando me formei, em 1950, recebi o Prêmio Raul Leite, que era um antigo laboratório que dava medalha de ouro para o primeiro aluno da turma, e também, uma matrícula na Pós-graduação. Naquela época, não havia Mestrado nem especialização, era Doutorado direto.  Estava fazendo este curso quando o Prof. Alcides Figueiredo da Silva Jardim, Prof. Titular de Química Industrial Farmacêutica me chamou para ir trabalhar com ele.
Foi então que tomei a decisão de ir para o magistério e a minha vida mudou toda.  No início eu era inibido. Primeiro ganhei uma bolsa do CNPq para fazer pesquisa, desenvolvendo a tese de doutorado e, dali em diante, fui nomeado professor auxiliar, aí fiz carreira na UFRJ.
Prof. Levy em aula no Laboratório  
Meu pai, que j á estava com o consultório médico dele, resolveu vender a farmácia e dar o consultório dentário para o meu irmão, que estudou Odontologia. Fiquei de 1951 até 1994 na UFRJ, ao todo 43 anos, onde lecionei diversas disciplinas e também atuei como administrador.


Portal: O Sr. foi o responsável por fazer a transferência da Faculdade de Farmácia da Praia Vermelha para o Fundão. Como foi esse processo de mudança?
Prof. Levy Gomes Ferreira: O reitor da época, o Prof. Reinaldo Costa me chamou para ser responsável pela mudança. Aceitei o desafio. Tive que escolher quais laboratórios iam primeiro. Fui ao Fundão distribuir as salas. Aos poucos, ia desmontando os laboratórios e levando aquilo que era possível levar. Bancada de azulejo não dava, mas levei todas as de aço inoxidável. Fazia relação de tudo, o caminhão carregava, quando chegava lá uma equipe ajudava o professor a montar. Havia muitos problemas de aparelhos que não entravam pela porta, eram mais altos do que a altura da sala. Tive que fazer um buraco de 2x2m para um destilador caber. Ele está lá até hoje no Centro de Ciências da Saúde, no bloco B, subsolo. Foi uma fase difícil pois tinha aula na Praia Vermelha e no Fundão. E, além disso, nessa época haviam feito uma reforma e todas as químicas tinham ido para o Instituto de Química, no outro prédio, no Centro de Tecnologia. Foi um ano de sufoco. Isso foi entre 1978 e 79, há 30 anos.

Portal: O Sr. já desenvolveu importantes pesquisas que foram responsáveis por retirar alguns medicamentos do mercado. Cite alguns exemplos.
Prof. Levy Gomes Ferreira: Em 1967 ganhei, com mais outros dois colegas, já falecidos, o 1º. Premio da Federação das Associações de Farmácia e Bioquímica do Brasil (FABB) pelo trabalho sobre o ácido para-aminossalicílico (PAS), em xaropes, que eram usados para tuberculose. Verificamos nos estudos que ele se hidrolisava e perdia a atividade. O produto saía bom da indústria, mas, depois de um tempo, como o xarope era feito com água, ele hidrolisava o ácido para-amino e perdia, assim, a sua atividade. Este trabalho contribuiu para que todos os fabricantes de produtos com este composto químico, na forma farmacêutica de xarope, retirassem do mercado suas respectivas especialidades. Em 1973, publicamos um trabalho sobre a pilocarpina, que era usada para glaucoma. Acontecia a mesma coisa, descobrimos, com o tempo, que ela se hidrolisava e perdia a atividade farmacológica, ou seja, perdia a ação. Dessa vez o medicamento não foi retirado do mercado, mas teve sua fórmula modificada.

Portal: A Física Industrial era umas das disciplinas ministradas pelo Sr.  Explique o que é a liofolização e quais as vantagens de se obter um medicamento a partir desse processo.  
Prof. Levy Gomes Ferreira: Na Física Industrial se estuda o uso do frio e do calor na indústria farmacêutica e de alimentos. O frio é usado para conservar as substâncias, pois os microorganismos só conseguem se reproduzir a 37 graus. O frio não mata os germes, só não deixa eles se reproduzirem. Já o calor é usado nos processos de esterilização, onde se liquida com todos os microorganismos. Na indústria farmacêutica o calor é muito usado para dissolver xaropes e para, através do vapor, concentrar soluções. A liofilização é um processo moderníssimo de secagem. Já pensou, secar uma substância com o frio? O processo é feito através do congelamento. Vai sugando, com um vácuo muito intenso, o que está congelado e a água, que está ali, passa direto do estado sólido para o gasoso, o resto precipita. O medicamento liofilizado irá durar mais tempo, pois não será hidrolisado pela água. Só será dissolvido no momento em que for ser usado. Muitos injetáveis são feitos assim. Há muitas substâncias que se decompõem, por isso não podemos usar o calor, a liofilização sendo a alternativa mais recomendada.

Portal: Como administrador da Faculdade de Farmácia da UFRJ quais foram as suas maiores dificuldades e suas principais conquistas?
Prof. Levy Gomes Ferreira: Tínhamos sempre que lutar com as verbas, adequando as nossas necessidades à verba que era designada. A gente lutava pelo aumento do orçamento para a compra de equipamentos. A tecnologia avança, era necessário lutar para conseguir os aparelhos mais modernos para que os nossos profissionais saíssem com nível bom. Às vezes, também tínhamos que apaziguar as confusões internas, que sempre existiam.  Entre as conquistas posso destacar a mudança para o Fundão e a montagem da Farmácia padrão do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho.  Mas a grande conquista foi mesmo a Farmácia Universitária, criada em 1986.

Portal: Na Associação Brasileira dos Farmacêuticos (ABF) o Sr. é diretor do Museu Antônio Lago e criou o projeto do Museu Itinerante. Qual a importância de se popularizar a história da Farmácia?

Prof. Levy Gomes Ferreira: O Museu é bonito, mas fica no décimo andar de um prédio na Centro da Cidade, na Rua dos Andradas. É de difícil acesso para a população. Quando há um evento que demonstra um interesse em nosso trabalho, nós levamos o museu. É importante as pessoas terem conhecimento de como evoluiu o medicamento. Um outro objetivo do projeto é despertar a vocação para a profissão.
  Prof. Levy recebe homenagem da ABF


Portal: O Sr. é considerado pela nova geração uma referência em assistência farmacêutica. Quando o Sr. começou a desenvolver este trabalho?
Prof. Levy Gomes Ferreira: Esse interesse começou a ser despertado em mim já quando eu atendia no balcão da farmácia do meu pai. Percebia que a população tinha uma carência enorme de informações e eu tinha condições de dar um tipo de assistência melhor. Acho primordial o farmacêutico ser para a população uma espécie de agente sanitário, levando a informação sobre as doenças. Em breve, sairá uma portaria para fazer do farmacêutico um agente sanitário, dentro das drogarias, para ensinar as coisas à população na assistência farmacêutica. Quanto a ser referência, acho que é por causa do Hospital do Fundão ter sido considerado um centro de excelência do Ministério de ensino em hospital. Eu recebia alunos do Brasil inteiro, que vinham fazer estágio comigo, para depois voltarem para os seus Estados e implantarem o que viram.

Portal: Como o Sr. acha que deveria ser composto o arsenal terapêutico ideal da modernidade?
Prof. Levy Gomes Ferreira: Em breve, deve sair o medicamento inteligente.  Com doses menores, efeitos secundários mínimos, que irá atuar direto no foco onde está a doença. Chama-se nanomedicamento. A nanotecnologia está avançando muito. Com o nanomedicamento e as vacinas, o arsenal terapêutico vai ser maravilhoso. A vacina para mim é o melhor medicamento que tem, não possui efeitos colaterais e protege a pessoa de ter determinada doença. Vacina não é um produto definido ativo, é feita com o próprio germe que faz a doença. Só a presença dele morto já faz você desenvolver no seu organismo os anticorpos, as defesas para aquela doença. Agora foi descoberta a vacina para o câncer de útero, é 99% de proteção.

Portal: Quais são as suas principais metas para 2008?
Prof. Levy Gomes Ferreira
: Já cumpri a missão de dar aula, agora a minha ocupação está sendo escrever livros para deixar registrada a experiência adquirida. Esse ano está previsto para ser lançado um dicionário, que estou fazendo há 4 anos, que não quero entrar em detalhes, será surpresa. Estou assinando o prefácio do livro que conta a história dos 60 anos da Faculdade de Farmácia da UFRJ, este também para ser lançado em 2008. Estou escrevendo um livro sobre doenças cardio-vasculares e, um outro, de Farmácia Hospitalar. Tenho 18 livros para escrever listados. Enquanto estiver vivo, e puder, vou seguindo essa lista.








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