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Pesquisas de Acesso Livre e Parcerias Público-Privadas:
Conceitos que podem ser a solução para a inovação em fármacos


Por Arthur Prado

Uma rede de pesquisas aonde não existem patentes e que todos as partes envolvidas no processo de concepção de novos fármacos saem ganhando. Essa proposta pode parecer utópica, mas também pode ser a salvação para a resolução da crise de inovação enfrentada no mundo atualmente.

É o que garante o Dr. Wen Hwa Lee, coordenador científico da Structural Genomics Consortium (SGC), uma parceria público privada que apóia o descobrimento de novos fármacos através de pesquisa de acesso livre, com sede nas Universidades de Oxford e Toronto.

Dr Lee apresentou a proposta da empresa aonde trabalha, numa palestra ministrada na última quarta-feira, dia 14 de dezembro, sob auspícios do Instituto Nacional de Ciência e tecnologia de Fármacos e Medicamentos (INCT-INOFAR) no auditório da Farmacologia no Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no campus do Fundão.

A palestra “Consórcio de Genômica Estrutural - oportunidades na descoberta de novos fármacos” teve como principal tema o novo panorama da inovação farmacêutica e suas consequências e oportunidades.

Foto: Arthur Prado
O doutor Wen Hwa Lee
O doutor Wen Hwa Lee

O Doutor Wen Hwa Lee nasceu em Taiwan, mas morou no Brasil durante um bom tempo onde fez seus estudos. É graduado em Biologia pela UNICAMP, aonde também concluiu o mestrado e o doutorado em Biologia Molecular. Lee também desfrutou de experiências internacionais fazendo seus pós-doutorados no Scripts, Califórnia, EUA e na Université Paris V, na França de onde ingressou na SGC. Em sua palestra, Lee abordou, de forma dinâmica e interativa, os aspectos do novo panorama da inovação farmacêutica no mundo e as oportunidadess que se anunciam nesta área.

Segundo o Diretor Científico da SGC, as grandes indústrias farmacêuticas têm passado por maus lençóis na inovação ultimamente. A conseqüência disso foram as adaptações que as chamadas “Big Pharmas” tiveram que fazer para tentar frear a iminente crise:

- Toda essa crise fez com que as indústrias farmacêuticas buscassem adaptações, como, por exemplo, fazer P&D em países com menores custos; fazer lobbies para estender as patentes; expandir esforços de marketing em economias emergentes como o BRIC; e, principalmente, evitando investir em P&D em áreas de maior risco financeiro como a neurociências. Esta situaação é prejudicial à Ciência.

Lee destacou que áreas mais “seguras” são exploradas em demasia, enquanto outras, mais desconhecidas e inexploradas são preteridas pelo receio em não haver retorno financeiro adequado. Ainda, segundo Lee, o setor farmacêutico está cada vez mais rígido em enxugar suas folhas de pagamento:

- Em 2009, foram 70 mil demissões de pessoal altamente qualificado atuando em P&D, em todo o mundo. Em 2010, esse número foi de 61 mil. Estamos falando de mais de 100 mil profissionais altamente qualificados demitidos em apenas dois anos.

Foto: Arthur Prado
O Dr. Wen Hwa Lee apresenta sua palestra no INCT-INOFAR
O Dr. Wen Hwa Lee apresenta sua palestra no INCT-INOFAR

O Diretor Científico da SGC acredita que o sistema de inovação atual, em uso pelas Big-Pharmas não consegue atender às necessidades de inovação da sociedade. Gasta-se, somando todas as vertentes da inovação, ca. 200 bilhões ao ano, metade da própria indústria e metade de agências governamentais e ONG´s, para valores de 2010, e não se consegue um resultado satisfatório com medicamentos realmente inovadores.

Ainda segundo Lee, a fórmula atual usada para a descoberta de novos medicamentos por todos os laboratórios farmacêuticos é engessada e prejudicial à inovação. No processo de aprovação do medicamento pelos organismos regulatórios, existem fases de testes que tem uma taxa possível de erro superior até a 90%. Com todos os laboratórios usando o mesmo método, esta taxa atinge a todos.

- A inovação em fármacos vem da capacidade de se manipular, brincar com as variáveis. O modelo de pesquisa atualmente necessita de uma mudança fundamental – exalta o pesquisador. 



SGC

Após listar e apontar os problemas do panorama abordado, o Dr. Wen Hwa Lee finalmente abordou o objetivo e as características da SGC e como ela pode ajudar na solução desse grande impasse que assola a inovação.

A Structural Genomic Consortium (SGC) é uma rede de pesquisa nascida de uma parceria público-privada que apóia o descobrimento de novos fármacos por um método diferente: o do acesso livre (open-innovation) e irrestrito aos resultados das pesquisas.

Com sede na Universidade de Toronto, no Canadá, e de Oxford, na Inglaterra, a SGC visa construir parcerias que possam transformar todo o processo de pesquisa feito em domínio público, desprendido de patentes, para qualquer pesquisador poder coletar os dados e ir ao trabalho.

A idéia é beneficiar todas as partes do processo de inovação. As indústrias farmacêuticas teriam, por uma quantia de apenas 8 milhões de dólares, acesso a informações de pesquisa que possam se revelar preciosas. O governo seria beneficiado por poder assistir a pesquisas que envolvam uma necessidade social de seu interesse. E os cientistas ficariam livres de restrições para desempenhar a função que gostam e amam.

Para os que acham que isso não daria certo, o doutor Lee apresentou dados convincentes: O impacto cientifico, econômico e social desse método se mostra relevante com 1.4 artigos publicados por mês, 25% da produção mundial de novas estruturas e 3 sondas químicas em apenas 20 meses.

Com esses dados, Lee mostrou que é possível. Desvendando novos alvos terapêuticos, incluindo novos grupos de pacientes, incubadoras de tecnologia, criando empregos e, principalmente, disseminando dados de forma dinâmica através de um banco de dados chamado Eletronic Lab Notebook (ELN) e de paper interativos, a SGC, uma instituição sem fins lucrativos, vem revolucionando o processo de inovação sem patentes.

Na área profissional, o doutor Lee anunciou um acordo com o CNPq para bolsas para pós-doutorado dentro do programa Ciências sem Fronteiras. As propostas podem ser mandadas para no site do CNPq. Existem 25 áreas de atuação diferentes.



Após a palestra, o Dr. Lee deu uma pequena entrevista ao Portal dos Fármacos:


Portal: “Qual é a perspectiva da SGC quanto ao Brasil na perspectiva da inovação farmacêutica?”

Lee: “ A perspectiva brasileira é vista com muito bons olhos. Em agosto estive aqui com o nosso diretor, uma pessoa respeitada no mundo inteiro. Ele já tinha visitado a China, a Rússia e a Índia. Quando eu o trouxe aqui pro Brasil, ele não estava muito certo, mas voltou literalmente pulando, muito animado com o entusiasmo das pessoas, com o objetivo que se viu. Nessa ocasião conversamos com o CNPq, FAPESP e alguns laboratórios nacionais. Ele viu que o sistema está completamente maduro. Então se conseguirmos trazer a idéia do SGC para o Brasil e se a comunidade achar que esse é o caminho certo, aceitar que será bom pro Brasil, nós daremos 110% de apoio”.
 


Portal: “ Quais os pontos negativos e positivos (para as partes envolvidas no processo de inovação) da ampliação dessa proposta da SGC numa escala cada vez maior?“

Lee: “Olha, eu sou suspeito, mas acho que realmente não há nenhum ponto negativo. Porque se você pensar que o objetivo de todo mundo que está envolvido é gerar novos medicamentos, o que só é possível se você tiver uma massa critica suficiente, quanto mais amplo for o processo, maior vai ser o engajamento dos pesquisadores e mais multiplicador vai ser o efeito. Temos que evitar proteger resultados preliminares como se fosse ouro, é o nosso grande objetivo. Posso te adiantar que temos planos para tentar ampliar nossas pesquisas até a fase II, que é a fase com a mais alta taxa de falha.”

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